A pouco mais de 4 km do centro da cidade de Gouveia o percurso do Vale da Cadela engloba diversos tipos de habitats (zonas de mato, ambientes ripícolas e rupícolas, bosques mistos de folhosas e resinosas), ao longo dos 6 kms de extensão. Com início a uma cota de cerca de 1000 metros o percurso tem o seu ponto mais elevado a cerca de 1200 metros.
A variedade de habitats e o incremento em altitude torna este percurso bastante interessante no que à biodiversidade diz respeito.
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Como visitar
Saindo do centro da cidade de Gouveia em direcção a leste, irá encontrar placas com a indicação “Curral do Negro” junto ao Tribunal de Gouveia e ao posto da Polícia de Segurança Pública. O percurso pela estrada Municipal 1112 é curto, mas o declive é bastante acentuado, pelo que é aconselhado o uso de uma viatura motorizada para chegar ao local.
Depois de chegar ao Curral do Negro deverá continuar na estrada municipal durante mais 1 km, até encontrar um desvio para sul, em terra e um pequeno largo, onde poderá deixar a viatura e realizar o percurso, de 5,5 kms, a pé.
Esta zona, tal como grande parte do património natural do concelho de Gouveia foi gravemente afectada pelos incêndios de outubro de 2017. Passados 3 anos, a regeneração natural é evidente dando uma nova vida ao local.
Apesar da proximidade à cidade, este percurso enquadra-se no andar intermédio da serra da Estrela, permitindo observar seres vivos adaptados à altitude que dificilmente se encontram a cotas mais baixas.
Nas primeiras centenas de metros do percurso os matos de giestas (Cytisus sp.), são predominantes. Aqui, a melodia das lavercas (Alauda arvensis) e das cotovias-dos-bosques (Lullula arborea) pode ser ouvida todo ano, bem como, o chamamento da ferreirinha-comum (Prunella modularis). Durante o período estival também é possível ouvir o canto melancólico da sombria (Emberiza hortulana), uma escrevedeira característica das zonas montanhosas enquanto os papa-amoras (Sylvia communis) são facilmente detectáveis enquanto se expõem, pousados num ramo isolado.
A vista é ampla e desafogada, o que permite observar algumas aves de rapina em busca de alimento no local, como as águias-de-asa-redonda (Buteo buteo) que estão presentes todo o ano. Durante a época estival, as águias-cobreiras (Circaetus gallicus) podem ser vistas à procura de répteis, como o sardão (Timon lepidus), enquanto no período migratório pós-nupcial grifos (Gyps fulvus) e abutres-pretos (Aegypius monachus) sobrevoam a zona. No Inverno é possível observar tartaranhões-azulados (Circus cyaneus) a patrulhar a área, com um voo delicado e suave junto à vegetação arbustiva.
Um olhar mais atento pode detectar alguns indícios de presença (pelos, dejectos e pegadas), de algumas espécies de mamíferos de ocupam a zona, como o javali (Sus scrofa), raposa (Vulpes vulpes), fuinha (Martes foina), gineta (Genetta genetta), doninha (Mustela nivalis) e coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus).
Rapidamente se vislumbra uma linha de água, a ribeira de Gouveia, alterando por completo o habitat. Uma galeria ripícola formada por uma vasta floresta mista, onde predominam carvalhos (Quercus sp.) e castanheiros (Castanea sativa) pode ser contemplada. Aqui todos os Outonos frutificam algumas espécies de fungos, como o boleto-de-pé-vermelho (Neoboletus luridiformis) e a galinha-da-floresta (Laetiporus sulphureus). Neste bosque podem ser observadas as 5 espécies de chapins ao longo de todo o ano, com destaque para o chapim-de-crista (Lophophanes cristatus) e para o chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus), pela menor abundância.
Próximo da linha de água, os salgueiros (Salix sp.) predominam e são as árvores ideais para tentar encontrar a felosa-comum (Phylloscopus collybita), durante o Inverno e a felosa-ibérica (Phylloscopus ibericus) durante o período de reprodução.
Também os répteis e os anfíbios estão presentes no local. São exemplos de espécies destes grupos o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi), o sardão (Timon lepidus) e a salamandra-de-pintas-amarelas (Salamandra salamandra).
Perto do final do percurso os matos de giestas (Cytisus sp.) e silvas (Rubus sp.) voltam a predominar, assim como as espécies a eles associados. A toutinegra-do-mato (Sylvia undata) é bastante abundante e pode ser observada durante todo o ano, enquanto que durante o período migratório pós nupcial podem ser observadas algumas espécies menos comuns na região e no país, como a felosa-malhada (Locustella naevia), uma ave tímida de comportamento esquivo.